
Olho do Surfista: a lembrança do sol que ninguém quer trazer para casa
Julho 29, 2026Já reparou que o seu filho está sempre a franzir os olhos para ver o quadro? Ou que a televisão parece ter-se aproximado do sofá? Calma: não é caso isolado. A miopia infantil está a crescer em todo o mundo. Uma revisão publicada no British Journal of Ophthalmology, com dados de mais de 5 milhões de crianças e adolescentes, mostrou que cerca de 36% eram míopes entre 2020 e 2023. E a previsão é que, em 2050, chegue perto dos 40%.
Boa notícia? Há muito que os pais podem fazer.
A miopia, sem complicações
Uma criança míope vê desfocado ao longe. Na maioria dos casos, é porque o olho cresceu um bocadinho mais do que devia.
Os óculos ou as lentes de contacto fazem a criança ver bem, mas não travam necessariamente a evolução da miopia. Ver bem e controlar o grau são duas missões diferentes.
Então porque é que anda tudo míope?
Um bocadinho de genética (pais míopes, filhos com mais risco) e um bocadinho de estilo de vida. E é nesta segunda parte que podemos mexer. Os suspeitos do costume são:
- pouco tempo ao ar livre;
- muitas horas a olhar de perto;
- ecrãs em excesso;
- escola cada vez mais cedo e cada vez mais intensa.
Os estudos são claros num ponto: brincar na rua protege os olhos. O International Myopia Institute recomenda entre 80 e 120 minutos por dia, sempre que possível. Ou seja, o recreio, o parque e a praia (que aqui no Algarve não faltam!) são grandes aliados da visão.
E os telemóveis e tablets? São os vilões?
Nem tanto. Dizer que “os ecrãs causam miopia” é simplificar demais. O que acontece é que quem passa muito tempo nos ecrãs costuma passar também muito tempo a fazer coisas de perto e pouco tempo lá fora. Em vez de declarar guerra ao tablet, experimente:
- fazer pausas de vez em quando;
- manter uma boa distância ao ler;
- evitar maratonas contínuas em frente ao ecrã;
- trocar uns minutinhos de ecrã por uns de sol.
Será que o meu filho é míope?
Fique atento se ele:
- se cola à televisão ou aos livros;
- semicerra os olhos para ver ao longe;
- não consegue ler o quadro;
- tem dores de cabeça ou olhos cansados;
- tem dificuldades escolares que ninguém consegue explicar.
Mas atenção: muitas crianças são míopes e nunca se queixam. Como só conhecem o seu mundo, acham que toda a gente vê assim! Por isso, os exames visuais regulares são o melhor detetive.
É possível travar a miopia?
É, e cada vez melhor. Hoje existem várias estratégias de controlo, e a escolha depende de cada criança. Podem passar por lentes oftálmicas específicas, lentes de contacto de controlo da miopia, ortoqueratologia (Ortho-K, lentes rígidas que se usam à noite) ou, em alguns casos, colírio de atropina em baixa concentração, que deve ser prescrito por um médico oftalmologista.
Não há solução única para todos. A decisão deve ser tomada em conjunto com um profissional de saúde visual, tendo em conta a idade, o grau e a rapidez com que a miopia está a evoluir.
Lista rápida para pais ocupados
- Marcar avaliações visuais regulares.
- Mandar as crianças brincar lá fora: 80 a 120 minutos por dia.
- Fazer pausas nas atividades de perto.
- Manter distância na leitura e nos dispositivos.
- Acompanhar a evolução do grau.
Quanto mais cedo, melhor
A miopia é muito mais do que “ter de usar óculos”. Quanto mais cedo aparece e mais depressa avança, maior o risco de miopia elevada no futuro, e é aí que podem surgir complicações.
Por isso, se o seu filho já é míope, ou se suspeita que ele vê mal ao longe, não espere. Na Algarvisão, acompanhamos a saúde visual das crianças e, quando faz sentido, avaliamos estratégias para travar a progressão da miopia. Os olhos dos mais pequenos agradecem!
Artigo por Dr. João Albano
Optometrista e Diretor Clínico da Algarvisão
Fontes: British Journal of Ophthalmology, “Global prevalence, trend and projection of myopia in children and adolescents”; International Myopia Institute, IMI 2025 Digest e Clinical Management Guidelines; Organização Mundial da Saúde, “Refractive errors and vision care”.




